O mundo hiper-realista/irrealista,fruto de mentes inventivas e até moderadamente habilitadas em IA, se materializa bem na frente de nossos olhos como se fosse real, fazendo parte do nosso cotidiano, acessível por um computador/aparelho multifuncional vade-mécum, ao qual todos já têm acesso, que todos levam consigo. Como se fosse, e se fosse, indagações em um mundo imaginário, já não geram mais dúvidas, deixam o campo hipotético para participar da ubiquidade cotidiana, confundindo o real com o irreal. A pergunta hoje seria: esse fato colocado é mesmo verdadeiro ou é só produto de IA? A irrealidade cotidiana, como já previa Umberto Eco, permeava a deterioração dos meios de comunicação de massa já no século passado. Contemporaneamente, CGI (Computer Generated Imagery), precioso recurso do cinema fantástico hollywoodiano, evoluiu para aplicativos que qualquer leigo pode aprender a utilizar com certa rapidez, utilizando conhecimento básico na área, tão disseminado que está. Assim, mortos são ressuscitados com o OPENAI, uma verdadeira máquina de deepfake, que tem produzido um derrame de imagens dando vida a figuras históricas como se ainda estivessem entre nós, em tempo real. É muito fácil confundir o real com o irreal, e não raro ouvimos pessoas dizendo que viram algo publicado nas redes sociais, mas que pode ser fake, pode ser produto da inteligência artificial. Ficamos no campo da dúvida. Nossas referências estão se perdendo como se estivéssemos de ponta-cabeça, perdendo o rumo ou o pólo magnético da Terra.
O que não dizer de textos jurídicos, comerciais, acadêmicos, científicos, técnicos, literários, cuja tradução é gerada por IA? Textos esses que precisam de contextualização, sensibilidade para diferenciação terminológica, discernimento lingüístico, vocabulário próprio, percepção de nuances, pontuação? Qualquer um que tenha ouvido relatos sem intonação, pontuação, pausas retóricas, recursos fundamentais da comunicação verbal, percebe como esses defeitos de uma fala robótica interferem na compreensão dos falantes e ouvintes humanos. Até mesmo jornalistas, âncoras, repórteres já estão perdendo a capacidade de se expressar humanamente parecendo robôs, escravos da pressa e da inexatidão. Se na fala acontece esse fenômeno, por que não na escrita mecânica que não for controlada por um ser humano senciente para aprumar o sentido, afinar conotações e denotações, observar a coerência e coesão, adequar forma e conteúdo, definir o registro do texto (ou seja, seu tom retórico), evitar oscilações terminológicas para fins de clareza, empregar compensação, técnicas tradutórias cujo objetivo é preservar a compreensão do texto e a fidelidade ao texto original? Traduções geradas por tradutores mecânicos/automáticos comparáveis a esteiras de produção industrial, ainda carecem que uma boa revisão humana e edição pós-produção de um especialista, e quem utiliza esse recurso sem maiores cuidados está fadado a erros crassos e a oferecer textos incompreensíveis ou incoerentes como um todo.
Contribuição da Tradutora Pública de Inglês Marie-Anne H.J. Kremer